domingo, 17 de fevereiro de 2013

Iconografia do Profeta Elias - Parte II



O quadro que apresentamos é um dos maiores artistas barrocos e, provavelmente, dos maiores da história da pintura, o flamengo Peter Paul Rubens (1577-1640), cujas obras se caracterizam pelo requinte sensorial do colorido, pela teatralidade das composições, pela exuberância e dinamismo dos corpos, geralmente dispostos em linha oblíqua e quase sempre contorcidas. Alguém afirmou que Rubens constitui o apogeu de toda a pintura anterior, de Miguel Ângelo a Caravagio de Tintoretto a El Greco e Varonese.
Datado de 1625, o quadro representa a profeta Elias recebendo de um anjo o alimento que lhe permitira recobrar as forças para a grande caminhada até ao monte horeb.
 Embora o tema seja o mesmo, difere muito dos quadros já aqui apresentados. Neste, o profeta não aparece a dormir, nem sequer sonolento ou cansado. É representado de pé, pronto para partir, vigoroso, seco de carnes, pernas e braços musculosos. Como é típico das personagens de Rubens, e do Barroco, em geral, não está estático. Faz o gesto, um pouco tímido, talvez respeitoso, de receber a oferta. O manto, de cor branca, contrariamente à cor vermelha habitual, parece agitar-se com a vinda do anjo.
Este, por seu lado, acaba de chegar. Os artistas barrocos gostam de captar o momento exato da metamorfose. O mensageiro de Deus ainda não parou. Dá o último passo. Ainda nem recolheu as asas. Também as vestes, esvoaçam como que agitadas pelo vento causado pelo voo. O rosto, extremamente juvenil, delicado, quase feminino, contrasta fortemente com a virilidade do profeta. A expressão facial parece mostrar respeito e espanto, reconhecendo a grandeza daquele atleta de Deus. A arte barroca aprecia os contrastes violentos, exprimindo a ideia de que toda a realidade é uma combinação de opostos.
Repare-se no enquadramento. Sugere que estamos a assistir a uma peça de teatro, num palco delimitado por robustas colunas torsas, salomónicas, também elas cheias de dinamismo, como é próprio da arquitetura barroca. A paisagem, ao fundo, agita-se. As nuvens levantam-se, como as cortinas de um palco, para deixarem ver a cena.
Todos estes elementos compositivos transmitem a impressão de que Elias é um profeta cheio de energia, um homem de acção decidida, não propriamente um contemplativo.
Mas o pormenor que mais me surpreende é o copo que o anjo apresenta. Pela delicadeza do seu trabalho, parece pertencer a um serviço palaciano de mesa. Lembra um copo de Murano, delicadamente trabalhado. Uma peça tão requintada, no meio de um deserto, prestes a ser entregue a um duro asceta, é mais um daqueles contrastes que os barrocos tanto apreciam. Rubens, porém, sabe que a bebida é interpretada como prefiguração do sangue eucarístico de Cristo. Por isso pinta o cálice tão preciosamente.
Aliás, o pão e a taça encontram-se mesmo no centro do quadro. São os elementos mais importantes da composição. Simbolizam a Eucaristia.

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Depois dos quadros que representam o sonho do profeta Elias e o encontro com a viúva de Serepta, não resisto a apresentar a iconografia do seu arrebatamento ao céu num carro de fogo. O espetacular episódio encontra-se no Segundo Livro dos Reis, cap. 2.
Embora haja muitas representações desta cena, escolhi uma iluminura de um códice medieval, pertencente a uma biblioteca holandesa, e um ícone. Apesar da ingenuidade técnica da iluminura, ela é, em minha opinião, encantadoramente expressiva. Repare-se na ausência de perspetiva, na inabilidade com que se desenham os cavalos, na solução extremamente estilizada que o pintor encontrou para representar o fogo. Apesar disso, o artista consegue dizer o que tem a dizer. O seu trabalho produz o efeito desejado. Ao artista medieval não interessa propriamente a técnica, mas a mensagem que pretende comunicar.
O episódio situa-se numa paisagem cujos elementos são apresentados em todas as iconografias desta cena. O mais importante é o rio Jordão. O profeta sobe ao céu quando se encontrava nas suas margens. Sugerem-no duas pequenas manchas azuladas, nos cantos esquerdo e direito da parte inferior da miniatura. Se bem repararmos, no ícone veem-se mesmo alguns peixes com a cabeça de fora. Isso basta para sabermos que é um rio.
A figura em terra é o profeta Eliseu, a quem o profeta Elias, que se encontra dentro da carroça, transmite a sua missão e os seus poderes taumatúrgicos. Que se trata de um carro de fogo é indicado simplesmente pelas chamas que crepitam no seu interior. O texto bíblico diz que também os cavalos eram de fogo mas o pintor prescindiu desse pormenor, supondo que todos nós conhecemos o relato do arrebatamento. No ícone, porém, eles encontram-se dentro da grande mancha vermelha que representa o fogo em turbilhão, trazido por um anjo, o mensageiro e executor das ordens divinas. Os cavalos têm asas. Isso significa que voam para o céu, é representado pelas estrelas, pela mão de Deus, que opera todas as maravilhas e por uns traços ondulantes que representam a luz do sol. Segundo a cosmologia medieval, Deus encontra-se no empíreo, acima de todas as esferas. Abaixo dele, por ordem decrescente, estão os círculos do Cristalino, do Firmamento, onde se encontram as estrelas que mantêm entre si uma posição firme (daí, firmamento), os círculos de Saturno, de Júpiter, de Marte, do Sol, de Vénus, de Mercúrio, da Lua e, no centro do sistema, a Terra. Por seu lado, na miniatura, a presença de Deus é apenas sugerida por uma pequena mancha vermelha, no canto superior direito, para onde o profeta dirige o olhar. Em todas as iconografias deste tema, o profeta é representado olhando para cima, isto é, para o céu. Para a imaginação humana, Deus e o céu estão lá no alto, por oposição ao demónio e aos infernos, que se encontram nos espaços inferiores, debaixo da Terra. O primeiro é o espaço da vida; o segundo, da morte.
Elemento importante da narrativa é o manto do profeta. Simboliza a sua dignidade e poder. Foi batendo com ele nas águas que o rio se abriu, permitindo a sua passagem, episódio que recorda os israelitas atravessando o Mar Vermelho, a pé enxuto. Na iluminura, o manto ainda escorrega do carro. Na outra iconografia, o profeta Eliseu puxa-o dos ombros de Elias, como se quisesse evitar a sua partida. Ficar com o manto dele significa herdar a sua missão e os seus poderes. Na iluminura, o profeta Elias apresenta nimbo, significando que é santo. O profeta Eliseu ainda não o ostenta porque ainda não começou a sua missão divina. No ícone, porém, ambos os profetas e o anjo têm nimbo dourado significando a santidade das três figuras.
Pormenor interessante é que, na iluminura, ambos apresentem a cabeça tonsurada, à maneira dos monges medievais. O iluminista pintou-os assim porque o profeta Elias é considerado o fundador da ordem dos monges carmelitas.

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Para rematar este ciclo do profeta Elias, escolhi duas iconografias. A primeira é uma pintura de Giuseppe Angeli (Veneza, 1712-1798). Pintor do Barroco tardio, apresenta, neste quadro, as tonalidades suavemente luminosas da escola veneziana. Escolhi-o porque estabelece um forte contraste com a ingenuidade técnica da iluminura medieval e do ícone bizantino.
            Nota-se, imediatamente, o domínio da perspetiva. O pintor situa-se num plano inferior à cena. Além de nos dar a viva impressão de que o carro do profeta já voa no ar, permite a exibição do domínio técnico necessário para pintar figuras vistas de baixo. Recorde-se, a propósito, a mestria de Miguel Ângelo, na Capela Sistina, ou o virtuosismo de Andréa Pozzo, pintor jesuíta, especialmente na glorificação de Santo Inácio de Loiola que se encontra na igreja de Santo Inácio em Roma. Esta técnica permite abrir na pintura a dimensão do espaço superior. Além disso, e principalmente, a figura retratada a partir de um plano inferior adquire maior grandeza. O profeta era um gigante de Deus.
Elias apresenta as características habituais: ancião, barbas brancas e calva, olhando para o céu, envolto no largo manto que depois deixará ao profeta Eliseu que, em terra, levanta os braços em sinal de espanto ou suplicando que o seu mestre não o abandone. O carro está representado apenas por uma roda (atributo muito frequente nas escultura de Elias, juntamente com a espada flamígera). O fogo irrompe do carro, junto aos pés do profeta. A posição rompante dos cavalos, patas dianteiras erguidas, transmite a ideia de movimento vigoroso. As nuvens indicam que a cena acontece já no ar. Toda a composição é espetacular. A arte barroca é, essencialmente, espetáculo, movimento vigoroso. Nenhum elemento se encontra em posição estática. As próprias nuvens se abrem.
            Apresento, igualmente, uma das mais antigas representações da assunção do profeta Elias, esculpida na face lateral direita do túmulo em mármore dos Anicii, importante família romana. Os arqueólogos datam-no de finais do séc. IV (390-400). É um exemplo de como a arte paleocristã aproveita as formas e os símbolos da arte romana. É possível observar, no nicho da direita, definido por um arco de volta perfeita, a mão de Deus entregando as tábuas da lei a Moisés. O profeta Eliseu já segura o manto de Elias, que se encontra de pé, dentro do carro puxado por uma quadriga alada. Repare-se na semelhança da roda com a da pintura de Giuseppe Angeli. As vestes são carateristicamente romanas. Um dos elementos mais interessantes é a figura deitada no chão, com uma cana na mão esquerda, sob a qual se pode ver um cântaro donde flui água. É uma alegoria do rio Jordão, em cujas margens teve lugar a assunção de Elias. Era assim que a arte grega e romana e a arte de filiação clássica representava, alegoricamente, os rios e as fontes.




quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Cinquentenária, Igreja Nossa Senhora do Carmo, em B




Prestes de comemorar seus 50 anos, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, o maior templo católico de BH, dispõe de um rico acervo de livros raros, além de desenvolver obras sociais

A primeira impressão é de surpresa. A segunda, de encantamento. De início, os olhos custam a crer que um livro de 1731, feito à mão, com capa de couro e molduras de metal, possa ser tão grande –70cm x  40cm. Mas logo as páginas com iluminuras e hinos religiosos, escritos em latim sobre a escala musical, mostram que se está diante de uma obra de arte que atravessa os séculos e precisa ser bem preservada. Na estante da biblioteca de raridades jamais vistas pelo público estão mais sete volumes com a mesma temática e dimensão, alguns feitos de pele de cordeiro, embora sem data e origem. “Esse é um dos mistérios da nossa igreja, saber de onde vieram e quando”, diz o titular da Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, frei Evaldo Xavier Gomes. À frente da festa do cinquentenário de inauguração do maior templo católico da capital, cujo ponto alto será em 15 de agosto e terá concertos e outras atividades culturais, o frei lembra que a história da igreja, localizada entre os bairros Carmo e Sion, na Região Centro-Sul, passa pela forte presença na comunidade, trabalhos sociais de vulto e participação permanente dos fiéis.

Se os livros raros chamam a atenção – e precisam de restauração, pois estão com as bordas das páginas cortadas, fitas adesivas coladas etc. –, mais ainda se destacam os vitrais da igreja, pertencente à Ordem Carmelita e com capacidade para acomodar 1,5 mil pessoas. No total, são 350 metros quadrados de vidros coloridos artisticamente trabalhados, de autoria da Casa Conrado, retratando cenas bíblicas e da ordem carmelita. Admirando os detalhes das peças, vê-se que o conjunto da nave e da sacristia demanda recuperação urgente. “Já temos o orçamento e corremos atrás de recursos”, conta o frei, que prefere não revelar o valor. Mas, para trazer de volta o som do carrilhão com 39 sinos, considerado o segundo maior do país – o primeiro é o da Catedral da Sé, de São Paulo (SP), com 60 –, a paróquia vai lançar campanha para arrecadar dinheiro. “O nosso sonho é ver o carrilhão funcionando, se possível na celebração do cinquentenário de sagração da igreja”, anima-se frei Evaldo, que chegou à paróquia há quase dois anos, depois de uma década na Itália, para substituir frei Cláudio van Balen, hoje vigário auxiliar e pároco por mais de quatro décadas.
Carrara
A Igreja de Nossa Senhora do Carmo deu nome ao bairro e também à avenida que passa em frente. O altar tem mesa de mármore de Carrara, pedra inteiriça, com 3,3m de comprimento, 70cm de largura e 10cm de espessura, com quatro pilares imitando o perfil de um frade, mostra frei Evaldo: “Quase tudo que está aqui dentro foi feito na cidade, das estalas ou bancos laterais do altar aos mosaicos, de autoria de A. Mucci. Só a imagem da padroeira foi esculpida no Rio Janeiro (RJ), por um artista português”. De tão perfeita, a acústica do altar permite que uma pessoa no último banco possa ouvir o celebrante. “Temos uma ótima concha acústica, pois, na época da construção, ainda não havia microfone eletrônico, observa.

Os mosaicos do altar, alguns folheados a ouro, reproduzem a imagem dos santos carmelitas “entrando na glória celestial”. São eles, do lado esquerdo, Santa Terezinha do Menino Jesus, São Simão Stock, Santa Maria Madalena de Pazzi, Beato Mantovano, Santo Alberto da Sicília e São Pedro Tomás; e, do direito, personagens do Antigo Testamento: Santo Elias, o profeta, com uma roda, simbolizando o seu carro de fogo que subiu aos céus; e Santo Eliseu, o discípulo, a quem entregou o seu manto. No alto e laterais, há anjos. “Esta igreja está cheia de símbolos. Nas laterais dos bancos de madeira estão os raios do carro de fogo. No altar estão três arcos representando a Santíssima Trindade”, diz o frei. De acordo com a Diretoria de Patrimônio da Fundação Municipal de Cultura, a igreja, já com processo de tombamento municipal aberto, tem estilo eclético pitoresco ou inspirado na arquitetura europeia. O projeto original saiu da prancheta do arquiteto Luiz Signorelli, também autor da planta do Grande Hotel de Araxá, no Alto Paranaíba. 

História começa em 1930
Vindos de São Paulo e comandados pelo frei holandês Atanásio Maatman, os carmelitas chegaram a BH no fim da década de 1930 para fundar uma igreja de grandes dimensões. Na época, a região, que muita gente chama hoje de Carmo-Sion, tinha o nome de Acaba Mundo, pois se imaginava que a cidade terminava ali. De início, os frades ergueram um templo pequeno e provisório, de alvenaria, voltado para a Rua Grão Mogol. Mais tarde, quando Juscelino Kubitschek (1902-1976) era prefeito e começava a abrir a antiga rodovia BR-3 (atual BR-040), ligando BH ao Rio de Janeiro, frei Inocêncio Gerritsjans, então dirigindo a ordem na capital, decidiu fazer a frente voltada para o trecho da estrada que se tornou a Avenida Nossa Senhora do Carmo. “Foi usado o mesmo projeto, por isso o piso é meio inclinado. Onde está a entrada principal seria o altar, e vice-versa”, afirma frei Evaldo.
O projeto demorou mais de 20 anos para sair do papel. Para conseguir o dinheiro, frei Inocêncio circulava pela Cidade Jardim, considerado então “o bairro das famílias ricas de BH”, e pedia ajuda. “Entrava nas festas, ao final tocava piano e depois ganhava adesão”, diz o frei. Era comum ainda ver outros religiosos pelas ruas, batendo de porta em porta atrás dos recursos necessários para a obra. De memória prodigiosa, o engenheiro e arquiteto Ildeu de Oliveira Aguiar, de 87 anos, se lembra bem daqueles tempos. Ele foi o responsável técnico e executor da obra e até se mudou para a Rua Passatempo, onde mora até hoje, para acompanhar melhor o serviço de construção da igreja e de um convento. “Foram três etapas, começando pela igreja, depois pela ala da Avenida Nossa Senhora do Carmo e depois a parte da Grão Mogol.”
Para quem vai às missas e outras celebrações, a melhor definição para a Igreja do Carmo é casa de Deus. “Ela tem uma arquitetura bonita, é bem frequentada, tem participação grande da comunidade, realmente um lugar acolhedor”, avalia a técnica em assuntos educacionais Maria Iara Alkimin, moradora do Bairro Cruzeiro e que se casou nesse templo em 1974. Para a gerente de loja Luiza Dutra, de 28, residente no Bairro Sion, a igreja é um “convite à oração”. Ela fez a primeira comunhão e vai se casar no templo este ano, com missa. “Admiro principalmente os vitrais. Maravilhosos!” Os mais novos estão presentes, a exemplo de Arthur Pereira de Mattos Paixão Neto, de 19, morador do Bairro Serra, na Região Centro-Sul, e estudante de relações internacionais na PUC Minas: “Faço parte do grupo de jovens Eliseu, e comparecer às missas, aos domingos, é muito bom”.
Sino doado por JK
 (Marcos Michelin/EM/D.A Press)
» Os sinos do campanário foram doados por autoridades, empresários e figuras ilustres de BH: Juscelino Kubitschek, Bias Fortes, José Maria Alkmim, Celso Mello Azevedo, Flávio Gutierrez, Antônio Luciano Pereira e outros. Cada um tem gravado em alto relevo o nome de quem presenteou a igreja e uma frase. 

» A Paróquia do Carmo tem quatro bibliotecas: uma aberta ao público, uma específica para crianças, a de obras raras e uma de livros teológicos. Há também uma mapoteca para consulta.

» Os oito livros de hinos religiosos, do século 18, contêm as iluminuras, ou ilustrações coloridas. Quem já assistiu ao filme O nome da rosa vai se lembrar dos monges medievais, os copistas, na biblioteca do mosteiro fazendo esse tipo de trabalho. 

» Nos livros de iluminuras há ilustrações de todo tipo. Impressiona a beleza das letras, algumas desenhadas sobre paisagens detalhadas ou com “chinesices”, que são motivos orientais. 

» Na década de 1980, todo o acervo da ordem carmelita no país foi transferido para BH, daí o grande número de livros nas bibliotecas. 

» Carmo, em hebraico, significa jardim. Dessa forma, Nossa Senhora do Carmo é também Nossa Senhora do Jardim. A Ordem Carmelita surgiu em 1206 no Monte Carmelo, na Terra Santa (Israel). 
Trabalho abnegado

A Igreja do Carmo, com 5 mil metros de área construída, desenvolve diversas obras sociais. O ambulatório atende cerca de 35 mil pessoas por ano. “Mantemos convênio com quatro universidades e dois hospitais, temos farmácia, salas para fisioterapia e acupuntura, antroposofia, homeopatia e gabinete odontológico. As taxas são simbólicas”, diz frei Evaldo. Há curso de alfabetização de adultos, ludoterapia (jogos) para crianças; centro de atendimento ao menor adolescente; assistência jurídica; escola profissionalizante e creches. A igreja tem 50 funcionários e vive de doações.
Fonte: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2013/01/29/interna_gerais,346788/cinquentenaria-igreja-nossa-senhora-do-carmo-em-bh-guarda-reliquias.shtml 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Minha iluminura favorita.


     Antes de voltarmos a bela serie de imagens do profeta Elias comentadas pelo prof. Luis da Silva Pereira, não poderia deixar de compartilhar esta não menos bela iluminura. Talvez por ser um carmelita estudante nos tempos modernos, quando vi esta representação na capa do livro "Carmel in Britain: Essays on the Medieval Carmelite Province, Vol. 2" embora sem cores, foi algo que me chamou a atenção. Hoje quando lia um artigo do medievalista Keith J. Egan na mesma coleção, procurando registros de fontes sobre as primeiras fundações carmelitas na Europa, me deparei com a citação da obra do frade dominicano Vincent of Beauvais (1190-1264) o qual se refere as primeiras fundações, então na procura pela obra, encontrei a bela iluminura que por tanto tempo procurei.
    Esta é a Iluminura abre o "Speculum Historiale" de Vincent of Beauvais, em um manuscrito que pertenceu ao Rei Eduardo IV e data de 1478-80, se encontra hoje conservado na Biblioteca Britânica em Londres. 
     A Iluminura nos mostra um carmelita (notado por sua capa branca, "whitefriars") sentado em seu escritório a escrever, em segundo plano vemos um biblioteca com coloridos livros que em parte se encontram atras de uma cortina verde, a iluminura e cercada por motivos florais e na parte direita bem como na inferior encontramos as armas do rei Eduardo IV ( que são esquartejadas entre armas francesas fundo azul com três flores-de-lis em amarelo, e inglesas com fundo vermelho com três leões em amarelo). As da direita estão em estandartes e são seguradas por um par de anjos (nota-se pelas azas) e as armas da parte inferior do manuscrito encontram-se em sua representação heráldica tradicional, exceto a que se encontra no centro que leva acima do elmo uma coroa e uma coruja e não um leão. 

domingo, 16 de dezembro de 2012

Iconografia do Profeta Elias


Autor: Luiz da Silva Pereira - Professor de Iconografia no Curso de Estudos Artísticos e Culturais da Faculdade de Filosofia / UCP / Braga.

Dieric Bouts ou Dirck Bouts, o mais velho, é um importante pintor flamengo do século XV. Terá nascido em Haarlem, entre 1415 e 1420 e aí faleceu em 1475, mas trabalhou principalmente em Lovaina, a partir de 1468. Sofreu nítida influência de Roger van der Weyden, um dos maiores pintores de todos os tempos, em nossa opinião.
O quadro que vemos representa o profeta Elias no deserto. De acordo com o relato bíblico (I Reis 19,1-8), depois de ameaçado pela mulher de Acab, Jezabel, que queria matá-lo por ter passado a fio de espada os profetas de Baal, Elias fugiu para o deserto. Tendo adormecido, apareceu-lhe um
anjo que lhe ordenou que se levantasse e comesse. Ao acordar, viu perto de si
um pão cozido na cinza e uma vasilha com água. Reconfortado com o alimento, caminhou quarenta dias e quarenta noites até chegar ao monte Horeb, o monte de Deus.
São esses dois momentos da narrativa bíblica que o quadro de Dieric Bouts representa, colocando o sono de Elias e a chamada do anjo, em primeiro plano, e a partida para a grande caminhada, em segundo.
Se bem repararmos, o quadro revela um bom domínio da perspectiva linear e tonal. As figuras em primeiro plano são maiores, significando que é o tema central do quadro; a figura do profeta já de viagem é mais pequena porque está mais distante, percorrendo um caminho que se estreita à medida que se afasta. A perspectiva tonal é dada pelo colorido da paisagem. O espaço mais distante apresenta-se monocromático, de cores mais esbatidas e indefinidas. Digamos, a propósito, que uma das mais permanentes características da pintura flamenga é a presença de paisagens, em fundo, por detrás da cena representada.
O pão, colocado em cima da vasilha com água, encontra-se ao pé da cabeça do profeta. Será um símbolo do alimento eucarístico, aquele de que o homem necessita para a longa caminhada da vida até ao monte de Deus. O cajado encontra-se no chão, na primeira cena, uma vez que a personagem dorme. Que o profeta caminha é-nos sugerido pelo cajado na mão direita, mas também por um dos pés estar mais atrasado que o outro e o manto esvoaçar ligeiramente. Repare-se no pormenor de o profeta dormir apenas reclinado, a cabeça apoiada na mão direita. Tal gesto
pode sugerir que, mesmo dormindo, está pronto para partir, respondendo ao chamamento de Deus. As barbas, característica habitual na iconografia dos profetas, significam maturidade, autoridade, e que é um homem de Deus.
A cor vermelha do manto poderá aludir à relação de Elias com o elemento ígneo. Recorde-se que o texto bíblico o apresenta como um homem que “arde em zelo pelo Senhor” (I Reis 19, 14), pede a Javé um fogo que consuma o holocausto por ele preparado, provando assim que Baal é um falso deus (Ib. 18, 19-38) e é arrebatado aos céus num carro em chamas puxado por cavalos de fogo (II Reis 2, 11). Por isso, um dos seus atributos iconográficos é uma espada flamejante, para além da roda do carro em que foi transportado e do corvo que lhe traz alimento. Convém também lembrar que o profeta Elias, ao ser arrebatado para o céu, deixa cair o manto, legando-o como herança, por certo simbólica, ao profeta Eliseu, que assiste à cena e lhe sucede como profeta de Israel.
O anjo que, de pé, para ele se inclina e delicadamente lhe coloca a mão no ombro, a fim de o despertar, é pintado de branco, cor tradicional dos anjos, e ostenta magníficas asas policromas. Frequentemente, os pintores assim as representavam. Recordem-se os anjos de Fra Angélico, por exemplo. Em nossa interpretação, a policromia das asas significa a luminosidade dos anjos e, portanto, a sua natureza espiritual. Os medievais sabiam perfeitamente que as cores resultam da decomposição da luz e com a luz significavam a espiritualidade, o conhecimento e a beleza. São Boaventura, por exemplo, escreve: “Propriissime Deus lux est” (Deus é, com toda a propriedade, luz). E acrescenta que aqueles que d’Ele mais
se aproximam mais luz têm.
***
Daniele Ricciarelli é também conhecido por Daniele da Volterra, nome da localidade onde nasceu, em 1509. Faleceu em Roma, a 4 de Abril de 1566. Foi pintor e escultor maneirista de qualidade. Ficou famoso não só pelas suas obras, algumas claramente influenciadas por Miguel Ângelo, de quem foi discípulo e com quem trabalhou, mas também porque foi o encarregado de “vestir” as figuras nuas da
capela Sistina, consideradas escandalosas. Por isso lhe puseram a alcunha depreciativa de “braghettone”, quer dizer, “o cuecas”.
O presente quadro, elaborado na década de 1550 a 1560, é uma excelente pintura. Representa o profeta Elias no deserto, logo depois de o anjo o ter acordado e lhe ordenar que se alimentasse porque o esperava uma grande caminhada. Que a personagem veio de viagem e vai continuá-la é-nos indicado não pela presença de um bordão, como noutras iconografias, mas pelo saco que lhe serviu de travesseiro. O pintor capta o preciso momento em que o profeta acorda e pega no pão. A caneca de água e o pão encontram-se em primeiro plano, significando a importância do simbolismo eucarístico do alimento e da bebida que lhe permitirão renovar as forças. O anjo não é representado, uma vez que apenas foi visto pelo profeta, em sonhos.
Repare-se na grande mancha vermelha do manto, em contraste com os tons ocres do deserto. Chamámos já a atenção para a importância da cor vermelha que simbolizará o fogo, tão importante na acção do profeta. Foi o fogo descido do céu que consumiu as ofertas, no confronto com os sacerdotes de Baal; foi um carro de fogo que o arrebatou pelo espaço, e foi o manto que deixou cair, ao ser arrebatado, como uma espécie de herança espiritual a Eliseu, seu sucessor como profeta de Israel.
No entanto, a grande força expressiva do quadro encontra-se em outros pormenores. Em primeiro lugar, notemos a posição do corpo. Dá-nos a viva sensação de um homem exausto, que acaba de acordar de um sono profundo e ainda se encontra estremunhado, não conseguindo abrir completamente os olhos nem sentar-se. Por isso se apoia no braço direito. Repare-se, depois, no tratamento dado à musculatura dos braços, dos ombros e dos peitorais que se adivinham sob a túnica. Impressiona igualmente o volume do pé direito, destapado, e da perna encoberta pelo manto. Elias tem as marcas físicas de um caminhante incansável.
Julgamos ver no tratamento da anatomia uma clara influência da maneira vigorosa como Miguel Ângelo pintava os corpos. Pintava como se esculpisse. E não esqueçamos que Daniele Ricciarelli foi também um notável escultor.
Em síntese, o quadro comunica-nos a impressão de um atleta de Deus, quase de um gigante, momentaneamente fragilizado pelas canseiras da vida, mas prestes a recuperar as forças com o alimento enviado pelo céu.
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A iconografia do profeta Elias é variada. Não se limita ao episódio em que um anjo o alimenta no deserto, como já vimos. Inclui também o holocausto das vítimas preparadas pelo profeta em disputa com os sacerdotes de
Baal (I Reis, 18); o episódio em que é alimentado pelos corvos (I Reis 17, 2-7),
bem como o arrebatamento ao céu num carro de fogo (II Reis, 2, 1-14). Estas duas
últimas iconografias são muito frequentes na arte bizantina ou por ela influenciada.
Mas há ainda uma outra menos habitual: o episódio da viúva de Sarepta, que acolhe o profeta e o alimenta com a última farinha e azeite que tinha em casa. Depois, o filho da viúva morre, mas o profeta ressuscita-o (I Reis, 17, 8-24).
O quadro que apresentamos é de Bernardo Strozzi, pintor barroco que nasceu em Génova, em 1581 e faleceu em Veneza, em 1644. A princípio influenciado por Caravaggio, deixou-se seduzir, depois de passar a viver em Veneza (1631), pelo estilo de Rubens e Veronese. O quadro que vemos, datado de 1630, revela ainda, em nossa opinião, influência de Caravaggio pela disposição concentrada das personagens e a maneira como a luz – neste caso vinda da esquerda para a direita – as recorta de um fundo totalmente escuro. Por isso se costuma dizer que Caravaggio é o iniciador do tenebrismo, caracterizado pela exarcebação do contraste claro-escuro, da luz e das sombras, valorizando os grandes planos, dando forte relevo ao desenho dos músculos, às expressões faciais, à gesticulação das personagens.
Elias aparece de barba branca e acentuada calva, elementos iconográficos habituais, para significar a sua idade, embora o braço esquerdo revele grande vigor. Repare-se que empunha ainda o cajado de viajante. Elias interpela
a viúva mal acaba de chegar da viagem de Carit para Sarepta. O gesto da mão direita é de quem pede de comer ou responde às objeções da viúva. O rosto é visto apenas de perfil.
O pintor prefere acentuar a suave beleza da viúva e, acima de tudo, a sua objeção desconfiada ao pedido do profeta, revelada nos lábios entreabertos e na perplexidade do olhar. Ao mesmo tempo, a inclinação da cabeça, que traça uma oblíqua paralela ao braço esquerdo de Elias, revela que escuta a promessa de que não lhe faltará comida. O pintor não esquece o pormenor da ânfora do azeite e da panela onde se encontra a farinha. Não os podia esquecer
porque constituem os elementos centrais do milagre e do seu simbolismo. Curiosamente, a viúva põe-lhes as mãos em cima como que defendendo os últimos alimentos que lhe restam, consumidos os quais morreria à fome.
Finalmente, a criança. Oferece uma escudela de água. O profeta pedira de beber, mas o relato bíblico não diz que é ela quem a vai buscar e a oferece. No entanto, é uma interpretação muito verosímil do pintor.
Mas o mais interessante é o facto de a criança estar colocada precisamente no centro geométrico do quadro. O seu papel será, pois, importante, senão mesmo fundamental. Com efeito, ela vai ser objeto de um milagre ainda mais
extraordinário do que a multiplicação da farinha e do azeite. Vai morrer e ser ressuscitada pelo profeta. Os milagres da ressurreição revelam não só o poder de Deus sobre a morte, mas a promessa de uma vida eterna.
Não podemos deixar de relacionar o episódio quer com a multiplicação dos pães e dos peixes, prefiguração da eucaristia, quer com a morte e ressurreição de Jesus Cristo, o filho de Deus. Tal relação permite-nos intuir o significado profundo de todo este episódio. A criança que eleva a escudela para oferecer a água, sem a qual não é possível a vida humana, é símbolo de Cristo que morre, ressuscita e oferece a comida e bebida da vida eterna, que é Ele próprio.
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sábado, 15 de dezembro de 2012

História do Carmelo no Brasil:


Titulo: A INFLUÊNCIA DA ORDEM CARMELITA NO PROCESSO DE FORMAÇÃO DA SOCIEDADE PERNAMBUCANA 

Autora: Profa. Dra. Maria das Graças Aires Araújo 

Resumo:
A presente pesquisa tem como objetivo analisar o processo de fixação e expansão da Ordem Carmelita, em Pernambuco, entre os anos de 1654 e 1727, a partir da organização e econômica empreendida pelos religiosos  na sociedade colonial pernambucana. Através do desenvolvimento deste trabalho, pode-se vislumbrar a participação empreendida pelos religiosos, no processo de ocupação e conquista do território pernambucano, durante a colonização portuguesa.

PDF:

http://www.cerescaico.ufrn.br/mneme/anais/st_trab_pdf/pdf_6/graca_st6.pdf

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Autor: HONOR, André Cabral

Resumo:

Após as sublevações em Pernambuco, posteriormente intituladas “Guerra dos Mascates”, é possível perceber nos documentos avulsos manuscritos existentes  no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa os ecos desse conflito na Capitania da Paraíba, que se apossa do discurso de fidelidade  ao rei para tentar se sobressair a Pernambuco. Neste contexto, os carmelitas reformados da Paraíba, por meio do seu então Capitão-mor João da Maia da Gama, vituperam os carmelitas observantes de Olinda, pedindo a entrega do convento destes à Reforma Turônica, expressando uma faceta do conflito eclesiástico que se iniciou na segunda metade do século XVII com a vinda dos carmelitas reformados para as capitanias do norte. Por meio de uma análise documental é possível lançar novos olhares sobre esses conflitos eclesiásticos dentro do Brasil  colônia e o contexto sócio-econômico que os rodeiam. A presente pesquisa faz parte da dissertação  de mestrado “O verbo mais que perfeito: uma análise alegórica da cultura histórica carmelita na Paraíba colonial” vinculado ao Mestrado em História da Universidade Federal da Paraíba.

PDF:

http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S25.0188.pdf

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Novo Comissariado Geral do Paraná


Prior Geral Frei Fernando Romeral, lê o decreto de ereção do
Comissariado Geral dos Carmelitas do Paraná 



   No ultimo dia 20 de Outubro, Teve lugar em nossa Igreja de Paranavaí ( Paraná, Brasil), uma solene celebração eucarística em ação de graças pela ereção canônica do novo Comissariado Geral do Paraná, até agora Comissariado Parovincial da Alemanha Superior. A Eucaristia foi presidida pelo bispo da Diocese de Paranavaí, Dom Jeremias Steinmetz, com ele concelebraram Dom Frei Wilmar Santin. O.Carm, Bispo da Prelazia de Itaituba, Prior Geral, Pe. Fernando Millán Romeral, O.Carm., Frei Geraldo D’Abadia Pires Maciel, Provincial do Rio de Janeiro, Frei Francisco Manoel de Oliveira, O.Carm. (nomeado primeiro comissário) e praticamente a totalidade do Comissariado, Assim como numerosos sacerdotes diocesanos. Ao final da cerimonia (na qual se celebrou também a profissão solene de um irmão do Comissariado), o Prior Geral leu o decreto de ereção e sublinhou a importância histórica deste ato.
    Nos dias antecedentes a dita celebração, os membros do Comissariado se reuniram em um “capitulo espiritual extraordinário” para se colocar em espirito de discernimento frente aos grandes desafios que se abrem nesta nova etapa do mesmo.
     Com este, são quatro os Comissariados Gerais da Ordem: Le Bruna em Nápoles, Portugal, Filipinas e Paraná.

Fonte: CITOC, tradução nossa.

Nesta ocasião o jornal de Paranavaí "Diário do Noroeste" publicou a seguinte reportagem sobre a história dos carmelitas no Paraná: